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Colunas e Editorial
01/07/10
A Copa do Mundo começou agora!
Milton Jordão

Caros leitores e amantes do direito desportivo:


O tema que pretendo escrever algumas linhas passa por uma paixão que nos move a cada 4 anos e altera a rotina durante todo um mês: a Copa do Mundo de Futebol. Ousarei fugir um pouco do direito desportivo, das fórmulas e formas jurídicas, dos princípios, dos erros e acertos do nosso legislador. Tentarei dar vazão a algumas observações que venho cultivando desde o início deste Mundial.

A Copa do Mundo, sem qualquer dúvida, é o evento mais empolgante e que consegue envolver as mais diversas nações de maneira única e singular. Esta não difere em nada das outras dezenove edições, penso eu, neste quesito. Quiçá, o maior diferencial seja a quantidade de espectadores que a hoje têm acesso a informações diárias e conseguem assistir aos jogos, seja através de um imenso telão ou telefone celular.

Acompanho com efusividade este torneio de futebol desde 1994, procurando assistir o número maior de jogos e ouvir as mais diversas opiniões após as partidas. É um momento interessante, onde toda a imprensa não para de falar a mesma “ladainha” (e nem chegam a usar palavras ou empregar verbos distintos: eles repetem tudinho!), são repetidas as mesmas jogadas, matérias, mas, ninguém se cansa. Afinal, é a Copa do Mundo.

Nesta 19ª edição tivemos evidenciado alguns temas que antes eram pouco enfocados, que gostaria de compartir com vocês.

No âmbito do futebol propriamente dito, vimos uma primeira rodada pífia, na segunda já melhorou (dizem que foi a tensão da estréia) e uma terceira rodada, nalguns grupos, emocionante – mas, com questionável qualidade das partidas. Enfim, poucos gols, atletas temerosos, que em nada (ou quase nada) lembravam as suas atuações nas equipes em que jogam, grande seleções revelando-se bando de atletas que se perguntam o que foram fazer na África.

De tudo isso, pode-se ter a convicção de que mais do que nunca: o futebol está universalizado. É uma realidade que precisa ser vista e alguém precisa reinventar este jogo!

As equipes de menor expressão perceberam que o jogo hoje é disputado entre quem mais corre, marca e bate. Então, provavelmente após verem tapes e mais tapes dos campeonatos mais badalados do mundo, os seus técnicos (que quase nunca são nacionais, geralmente um argentino, brasileiro ou europeu), para não perder de muito, armam retrancas firmes, fazendo promessa para uma divindade caso consiga marcar um simples gol. Todos com uma convicção: o vigor físico manda hoje no futebol.

Por essas e outras, por mais incrível que possa parecer, a Nova Zelândia saiu invicta. Não levou nenhuma goleada, naturalmente, alguém pode argüir que foi culpa dos seus adversários. Por certo, faltou qualidade de alguns para vencer um bloqueio de jogadores que estão longe das grandes ligas - e, se duvidar, gostam mais de rúgbi do que do próprio futebol. Porém, a verdade que se extrai disto é que algumas nações que seus torcedores cultuam e praticam o futebol profissional precisam rever seus esquemas táticos e opções de estilo de jogo. Não compreendo uma Copa onde a Nova Zelândia saiu invicta.

Mas, sigamos. Afinal, não é justo lançar toda a carga de “retranqueiro” no povo neozelandês quando se assistiu Portugal, país que tem um ativo e rico mercado da bola, atuar como se fosse um time do interior da Bahia quando enfrenta um dos grandes do nosso Estado. Somente não teve pena dos norte-coreanos e aplicou-lhe sonora goleada. E o pior é saber que a “retranca” lusitana foi opção do treinador. Jogadores habilidosos do meio de campo haviam (nem tanto, ora, pois, mas existiam), faltou coragem. Por tal, arcou com o ônus de fazer sete gols, levar um e ser eliminada.

Triste também foi ver o futebol do Leste Europeu, antes temido e forte, sucumbir, a exceção da Eslovênia. Times cheios de jogadores com nomes difíceis de pronunciar e com futebol mais difícil ainda de assistir. O mesmo se aplica à Grécia que, não sei como, conseguiu se classificar e trouxe na bagagem jogadores que só complicam os narradores de futebol e entristecem os amantes do esporte bretão.

Os asiáticos mostraram-se deveras disciplinados. Os nipônicos demonstraram unicamente que, além da obediência tática severa, alguns de seus jogadores aprenderam a cobrar faltas perigosamente, talvez, fruto da passagem de Zico pelo Japão ou sorte com a jabulani. Os sul-coreanos demonstraram sensível evolução, mais uma vez avançando além da sua chave.

Não posso deixar de lado as atuações de Inglaterra, França e Itália. São três grandes centros do futebol, onde, talvez, circule a maior riqueza, é o sonho de qualquer jogador sul-americano ir brilhar num destes países, fazer fortuna e fama. As suas seleções revelam o quão individualistas são seus atletas e dirigentes. Pouco se importaram com a Copa, afinal, os problemas que vitimou cada uma delas (a bem da verdade, o mau futebol praticado, somado ao descompromisso) não eram antigos. O lado triste é ver uma ensandecida torcida inglesa amargar uma medonha primeira fase, e os tiffosi humilhados ante adversários de parca expressão no cenário mundial. Quantos aos franceses, o que dizer? A torcida já os conhece, fazem uma boa Copa e outra lamentável. Estes, nem deveria se animar para a África, o correto era aguardar 2014.

Os ganhadores da primeira fase foram os Americanos, a exceção dos hondurenhos, os demais se classificaram muito bem. Não sem razão os grandes clubes europeus estejam repletos de argentinos e brasileiros, e noutros uns chilenos, uruguaios e paraguaios.

D’outro lado, causou tristeza o desempenho das seleções africanas, menos da África do Sul. Desta, diga-se, pouco se esperava. E foi além do previsto, quase obtendo uma classificação histórica. A maior decepção foi Costa do Marfim, que tem quase um time de jogadores que atuam em grandes clubes europeus, juntamente com os Leões de Camarões, que parecem dar sinais de que o fenômeno de 1990 foi um acaso. É lamentável que os africanos insistam em praticar um futebol se brilho, basicamente, marcado pela força física e, agora, um padrão tático próprio dos times europeus. De fato, copia-se um modelo que foge das características africanas, não há ginga, drible, nada! Só força e mais força. Talvez destes se salvem um ou outro jogador, como Drogba ou Eto’o, que, sozinhos, nada fazem. Pelé só foi um e – para azar deles – nasceu no Brasil.

Em resumo, pode-se dizer que a Copa do Mundo nos prova que a melhor forma de jogar – a exceção da Espanha e da Argentina – é no contra-ataque. Os grandes times têm demonstrado isso. Ou seja, no quesito futebol, pode-se dizer que a individualidade sucumbiu ao poder do grupo. Li na Folha de São Paulo uma coluna escrita por Carlos Heitor Cony que ressaltava que o futebol é esporte de grupo e tecia crítica aos atletas que o tinham mais como individual, com Pelé ou Garrincha. Agora, neste 2010, consagra-se, cada vez mais, o grupo como peça relevante dos times, salvo uma ou outra exceção. Será que os craques deixarão de existir?

Vê-se que o futebol moderno, este calcado na força física e na velocidade, pouco a pouco, perde força o jogador que decide, o grupo tem que decidir. Naturalmente, neste esporte todo um bom grupo faz a diferença, mas, não se deve lançar mão do atleta diferenciado, do craque, aquele que leva a multidão aos jogos, como se diz no dia-a-dia dos estádios,“que faz chover”.
Por isso, atletas como Messi (que neste quesito parece ser o único até então) devem ser exaltados, claro que nem tanto como faz o motivador Diego Maradona, e estimulados.

É preciso rever o futebol em sua essência, resgatar valores que vêm se perdendo e o único campeonato em que isso é possível é a Copa do Mundo, ainda que os interesses econômicos sejam presentes. Sei que minhas palavras talvez não encontrem eco, mas são um desabafo de quem ama e quer ver um futebol menos afetado pelo medo de perder dinheiro e não de perder o jogo.
Mas agora tudo isso muda.

O medo, a tensão, a ansiedade dão espaço para a garra, o empenho e a frieza para decidir. Os jogos das oitavas de final já indicaram isso. Vive-se naqueles quase 100 minutos todo o trabalho de anos, a alegria de seus torcedores, a consagração e a fama mundial.

Indago: porque conservaram estas emoções por tanto tempo?!

Porque mantiveram um futebol renhido, insosso e aborrecedor?!

Talvez seja tática, para uns poucos como Brasil ou Argentina. Talvez, nesta única oportunidade, os atletas se desliguem dos seus contratos e milhões e passem a se doar inteiramente ao jogo, se entregar por completo naqueles preciosos e minutos – menos para ele do que para nós torcedores. É como se tudo que vivemos parasse e nossa vida fosse trasladas para o campo! Isso é o futebol! A paixão que transcende a razão meridiana! Como torcedores não desejamos mais nada, a não ser a entrega de corpo, alma e chuteira ao jogo!

Pois é. Não posso concluir outras senão que a Copa do Mundo só começou agora!

Milton Jordão é Advogado Criminalista, Conselheiro do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária, Conselheiro do Conselho Estadual da Ordem dos Advogados do Brasil, Seção Bahia, Procurador e ex-Defensor Dativo do Tribunal de Justiça Desportiva do Futebol da Bahia, Diretor Presidente e Colunista do Instituto de Direito Desportivo da Bahia (IDDBA), membro do Instituto Brasileiro de Direito Desportivo (IBDD) e Professor de Direito Penal da Faculdade Ruy Barbosa.


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