Futebol brasileiro tem esquema de aluguel de vagas para jovens asiáticos
LANCENET! apura que muitos desses adolescentes estão ilegalmente no Brasil. Confira a história!
Alugam-se vagas no futebol brasileiro. Jovens e adolescentes estrangeiros que sonham em se tornar ídolos nos nossos times e outros, já não tão jovens, que se candidatam a treinadores ou a preparadores, a maioria de países Asiáticos, pagam - muitas vezes caro - por vagas em clubes brasileiros. Os jovens podem ser encontrados nas categorias iniciantes, alimentando a esperança de virarem profissionais no país pentacampeão do mundo.
Conforme LANCENET! apurou, o aluguel de vagas é - ou já foi - utilizado em clubes de São Paulo, Minas Gerais e Paraná. Envolve, principalmente, menores de idade. Muitos em situação ilegal no país e ainda submetido a péssimas condições de sobrevivência.
Nesta sexta-feira, por exemplo, vencem os oito dias dados pela Polícia Federal para que o "técnico" Kijae Lee e 12 jovens coreanos deixem o país. Eles foram notificados no dia 24, em Curitiba, por estarem com os vistos vencidos. Se não viajarem correm o risco de deportação. Alguns há vários anos perambularam por clubes paulistas, mineiros e paranaenses.
O aluguel de vagas nestes times rende um bom dinheiro. No Atlético Guaçuense, de Mogi-Guaçu (SP), a acolhida a dois coreanos em passado recente significou o ingresso de dois mil dólares mensais na tesouraria do clube, como admitiu o ex-presidente Admir Falsetti.
Mas, segundo Taedkgwan Ha, de 17 anos, um dos coreanos que estavam no Paraná, seu pai manda aproximadamente R$ 2.800 para ele treinar por aqui na expectativa de que aprenda a “malícia do futebol brasileiro”, como justifica um dos organizadores destes "intercâmbios". O curioso é que os "Aprendizes" estavam sendo treinados não por brasileiros, mas pelo coreano Lee, de 55 anos.
Em Piraquara, Região Metropolitana de Curitiba, o interesse por possíveis "investimentos" da Coreia criou uma situação surreal. Os 15 jovens coreanos chegaram a cidade em dezembro, com Lee e seu amigo agenciador Kyung Soo Ha. A partir da presença deles é que os empresários locais decidiram fundar o Esporte Clube Piraquara - o CNPJ é de 20 de março - cuja presidência foi entregue a Há, que mal fala português e não tinha qualquer vínculo na cidade.
Na verdade, os "fundadores" do clube esperavam receber até R$ 20 mil dos "investidores coreanos". Mas acabaram com um papagaio pendurado de R$ 29.799,17, valor da multa aplicada pela Polícia Federal, por manterem estrangeiros ilegais no país sob sua responsabilidade.
O ingresso dos coreanos Lee e Ha no futebol brasileiro deu-se com a ajuda do ex-jogador Roque Francischineli Junior, conhecido como Bozó, que atuou no São Paulo, Ituano e São Bento e foi um dos primeiros a criar Centros de Treinamento (CT) para jovens coreanos, em Itu, no interior paulista, inicialmente em parceira com coreanos. Foi ali, afirma, que o goleiro Rafael se formou. Depois que este CT fechou, ele criou a BNSA Sport Participação e Representações Ltda., em Salto, cidade vizinha, que passou a receber adolescentes "agenciados" por Lee, Ha e também por Kim Young Chal.
De forma a oficializar o "intercâmbio" previsto na legislação e que autoriza o visto de entrada no país por um ano, os três coreanos também abriram uma empresa BNSA na Coreia. Em nome destas empresas os vistos de permanência no Brasil eram solicitados na Embaixada brasileira e renovados junto à Polícia Federal. Através dela, Bozó, em uma conta que parece bastante modesta, diz que trouxe cerca de 25 jovens da Coréia, de 2006 para cá. Hoje, garante, não lida mais com eles, só com jovens brasileiros.
AGENTE ERA VISTO COMO INVESTIDOR
Com sete anos no Brasil, Kyung Soo Ha não consegue falar direito português, mas literalmente já acumula muitos quilômetros rodados em estradas brasileiras. Ele se recusa a dar explicações sobre suas idas e vindas - "cabeça doída com Polícia Federal", justificava-se para não falar nos dias seguintes à intimação para que os jovens coreanos deixem o país.
As relações entre Bozó, Lee, Kim e Ha foram bastante tumultuadas. Não foram poucos os desentendimentos entre eles, principalmente entre os próprios coreanos. Bozó garante ter cortado relações de negócios com Ha, a quem classifica como "um aventureiro", em 2011, após a última intermediação da entrada de coreanos. Segundo diz que foram apenas sete, dos 15 localizados em Piraquara.
O ex-jogador do São Paulo confirma que há um pagamento por parte dos familiares dos jovens a título de pagar as despesas no "intercâmbio" no seu Centro de Treinamento. Diz que recebia 800 dólares dos agenciadores - Ha e Lee - que, certamente, receberiam mais.
Ele explica o negócio: "a maioria dos pais quer que os meninos, em tendo qualidade, sejam colocados nos clubes do Brasil". Mas, nega ter intermediado o ingresso de algum estrangeiro em time de clube e desmerece o noticiário que o aponta como dono de um time de coreanos: "o time era misto, tinha brasileiros também".
Mas o curitibano Augusto Santos, mais conhecido como Gugu, oficialmente diretor de futebol do E.C. Piraquara, diz que foi por meio dele que Há chegou ao Paraná, em dezembro passado, onde virou presidente do Esporte Clube Piraquara. É verdade que Lee, Ha e os 15 jovens aportaram
na região metropolitana de Curitiba em dezembro, vindos de uma experiência mal sucedida de 90 dias em Betim (MG), da qual Bozó não participou.
Na cidade paranaense, eles foram morar numa casa da Rua Artur Martins. Ali, segundo admitiram vizinhos, e Tiago, um dos "aprendizes", moraram, pelo menos, 18 jovens coreanos, dos quais 12 foram encontrados pela promotora da Infância e Juventude de Piraquara, Fábia Gimenez, e a procuradora do Ministério Público do Trabalho do Paraná, Cristiane Sbalqueiro Lopes, na vistoria surpresa feita no dia 10 de maio. Já a Policia Federal identificou 15 jovens, três com as permanências legalizadas.
“Constatamos a precariedade no que diz com a higiene e alimentação. Tampouco existe qualquer programa para a convivência e inserção social (considerando que, de nacionalidade coreana e sem falar português sofrem mais intensamente o isolamento social já típico dos treinamentos em regime de internamento, como é o caso). Mais grave ainda é o fato de que os adolescentes não estudam e não têm perspectiva de estudar”, relatou a procuradora Cristiane após a visita.
Santos, diz que a chegada de Ha fazia parte de "uma parceria com Bozó que hoje não nos interessa mais". Bozo garante que nem sequer conhece Gugu, com quem teria falado apenas por telefone.
Tanto Gugu como o industrial no ramo de móveis de madeira, Laury Gentil Favero, do Conselho Deliberativo do E.C. Piraquara, não escondem que Ha ganhou a presidência do clube por acreditarem que ele seria um "investidor coreano" que atrairia mais investidores compatriotas. Isto, apesar da humilde aparência do coreano.
Os diretores do clube negam existir qualquer "esquema" por trás e garantem não terem visto a cor de nenhum dinheiro. Mas, no meio esportivo paranaense, Lance! ouviu que eles disseram que receberiam R$ 20 mil, provavelmente mensais.
Mais do que a visita das representantes do Ministério Público ou a multa aplicada pelos federais - que, segundo dizem, não pagarão, recorrendo à Justiça -, a presença da reportagem de L! em Piraquara agitou os fundadores do clube, alguns dos quais até tentaram intimidar os jornalistas. No sábado, 26 de maio, eles prometiam destituir Ha da presidência do clube e prometiam aproveitar no time apenas os três coreanos legalmente no país.
Fonte: Lancenet
|